Aproveitando o recente aniversário do 15-M, que suscitou diversos debates, em diferentes plataformas, sobre as diretrizes e o futuro desse movimento, retomo aqui uma fala do escritor uruguaio Eduardo Galeano. Embora um tanto antiga (o vídeo é de maio de 2011), ela toca em uma das questões mais sensíveis levantadas pelos analistas de hoje, sobretudo aqueles para quem “política” se faz apenas em organizações institucionais, rigidamente hierarquizadas, e não sem antes elaborar um programa mínimo e um máximo, assim como um meticuloso planejamento das etapas futuras, quase num vão exercício de futurologia.
Para estes, Galeano sugere: “Não sei o que vai acontecer. E tampouco me importa muito o que vai acontecer. O que me importa é o que está acontecendo. Me importa o tempo que é. E o o que “é” é esse tempo que se anuncia sobre outro tempo possível que acontecerá”.
Segue o vídeo, com a transcrição logo abaixo.
Eu estava na Praça do Sol e aqui reencontro a mesma energia de dignidade e o mesmo entusiasmo. Esse entusiasmo é uma vitamina E, “E” de entusiasmo, que vem de uma palavrinha grega que significa “ter os deuses dentro”. E toda vez que vejo que os deuses estão dentro de uma pessoa, ou se muitas, ou de coisas, da natureza, montanhas, rios, enfim, digo: Isso é o que falta para me convencer de que viver vale a pena.
Então, estou muito contente de estar aqui, como estive antes na Praça do Sol, porque é a prova de que viver vale a pena. E que viver está muito, mas muito mais além das mesquinharias da realidade poĺítica na qual se ganha ou se perde – e da realidade individual também, em que se pode ganhar ou perder na vida. E isso pouco importa em relação a esse outro mundo que te espera. Esse outro mundo possível que está na barriga deste. Vivemos em um mundo infame, eu diria. Não incentiva muito um mundo muito mal nascido. Mas há outro mundo na barriga deste esperando… E é um mundo diferente. Diferente e de parto difícil. Não é fácil o seu nascimento. Mas, com certeza, ele pulsa neste momento. Há outro mundo que “pode ser” pulsando no mundo que “é”. Continuar lendo

Texto originalmente publicado no