Resistência política, hacktivismo e Anonymous Brasil

Texto originalmente publicado no Le Monde Diplomatique Brasil

Em tempos de crescente protagonismo das mais variadas formas de redes digitais, nos quais a era informacional deixa de ser uma promessa malfadada para se tornar uma realidade incontestável, por um lado, despontam novas maneiras de se implementar o controle sobre as sociedades e, por outro, formas inusitadas de resistência política se ocupam de fazer frente a um comando cada vez mais distribuído e silencioso.

O capitalismo em seu estágio industrial, aliado a um sistema de administração social chamado por Michel Foucault de “sociedade disciplinar”, implementou formas de controle que, embora descentralizadas, exigiam a existência de meios de confinamento para disciplinar e controlar os corpos. Hospitais, escolas, quartéis, fábricas e as prisões – em essência, a imposição do controle absoluto sobre os indivíduos – são os exemplos mais comuns de instituições disciplinares. Em contrapartida, a resistência à disciplina se forjou sob a forma de sindicatos, associações de indivíduos etc.

Enquanto um meio de confinamento como a fábrica constituía os indivíduos em um só corpo, com a vantagem de controlar uma massa única, a resistência sindical, por exemplo, aproveitou-se disso para mobilizar uma massa conjunta ao reivindicar suas demandas.

Tempos depois, as instituições disciplinares se veriam em crise, juntamente com o modelo de comando utilizado por elas. Um capitalismo cada vez mais imaterial passaria, então, a implementar um controle mais sofisticado, exercido até mesmo ao ar livre, e auxiliado, em grande medida, por um sem-número de tecnologias digitais de comunicação. Chegamos, pois, ao que Gilles Deleuze, outrora parceiro de Foucault, chamou de “sociedade do controle”, cuja principal expressão, nos tempos atuais, pode ser creditada à rede mundial de computadores. A irrefreável digitalização de nossas informações sociais, culturais, financeiras e pessoais nos torna justamente isto: peças facilmente controláveis por meio de redes sociotécnicas (comércio, transporte, telefonia, aparelhos portáteis, água, luz, computação etc.).

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Anonymous e zapatistas: um discurso afinado

Anonymous: Como derrotar uma máscara? Como pôr fim a uma ideia? Foto: Thanh/flickr

Não é a primeira vez que observo semelhanças entre o discurso proferido por membros dos Anonymous e os lendários comunicados emitidos pelo Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) por meio de seu eminente porta-voz, o subcomandante Marcos. Isso pode ser notado sem grandes esforços nos diversos canais de comunicação entre o coletivo hacker e seu público externo — como nas redes sociais, em sites ligados ao grupo, em vídeos a ele atribuídos etc.

Até mesmo algumas ações dos Anonymous remontam às inovadoras formas de protesto empreendidas por grupos simpáticos à causa zapatista, já em meados dos anos 1990. A própria ação de negação de serviço (DDoS, ou Distributed Denial of Service, aquele que a imprensa costuma chamar de “ataque”, muito embora não cause dano ou prejuízo aos sites contra os quais se protesta) teve seu nascimento em média escala em 1994, quando o coletivo ativista Electronic Disturbance Theater desenvolveu o software Zapatista FloodNet, que automatizou os esforços para inundar com acessos determinados servidores. Nascia ali o autêntivo hacktivismo, ou ativismo hacker, do qual os Anonymous são filhos — legítimos, e não bastardos.

Até mesmo o ideário geral empregado pelos Anons remonta as táticas zapatistas. Afinal, “Anonymous” diz respeito, antes de qualquer definição, a uma ideia, a um modo de ação, a uma forma de protestar. Não se trata propriamente de um grupo unificado e formal, com suas regras e diretrizes bem definidas, mas antes de conjunto heterogêneo e difuso de grupos e indivíduos espalhados por vários cantos do mundo, que se unem e se segregam a todo momento, a depender da ação a ser realizada. Nesse sentido, “Anonymous” é alcunha sob a qual ativistas de todo gênero agem. Anonymous é todo e qualquer um. E está em todos os lugares.

Por conta do uso das pasamontañas, zapatista é todo e qualquer um. Foto: Leonora Enking/Flickr

E que dizer dos zapatistas? Se os Anons usam máscaras que remetem ao rosto do soldado britânico Guy Fawkes, popularizada pelos quadrinhos da HQ (e, posteriormente, pelo filme) V for Vendetta, os guerrilheiros do EZLN só apareciam em cena usando suas pasamontañas, também anonimamente. Se esse símbolo, que reforçou o caráter distribuído e anônimo do movimento, permitiu que qualquer pessoa, em qualquer parte do mundo, se declarasse um zapatista, não poderíamos esperar que a história se mostrasse diferente no caso Anonymous. E se, perdido em meio a uma “guerra em rede”, o exército mexicano não foi capaz de derrotar o EZLN, vejo que a indústria do copyright, os governos que tentam controlar a Internet e os “analistas de segurança da informação” também não terão vida fácil diante dos Anonymous. Afinal, como derrotar uma máscara? Como pôr fim a uma ideia?

Por fim, para ilustrar esse discurso afinado entre zapatistas e Anonymous, separei um trecho de uma entrevista concedida pelo subcomandante Marcos e documentada pela jornalista e ativista canadense Naomi Klein no livro Cercas e janelas: na linha de frente do debate sobre a globalização. Em seguida, há um comunicado recente emitido pelos Anonymous a respeito do papel do grupo.

Segundo Marcos…

Marcos é gay em San Francisco, negro na África do Sul, asiático na Europa, um chicano em San Ysidro, um anarquista na Espanha, um palestino em Israel, um maia nas ruas de San Cristobal, um judeu na Alemanha, um cigano na Polônia, um mohawk em Quebec, um pacifista na Bósnia, uma mulher solteira no metrô às dez da noite, um camponês sem terra, um membro de gangue nas favelas, um trabalhador desempregado, um estudante infeliz e, é claro, um zapatista nas montanhas

Já segundo os Anonymous (acesse aqui o texto original e aqui a tradução do pessoal da Vila Vudu, que reproduzo abaixo)…

Somos todos Anonymous

Somos legião. Estamos em todos os lugares e em qualquer lugar. Somos gay no Texas, negro nos anos 1950s em Selma, separatista basco na Espanha, curdo no Iraque e na Síria, anarquista na França, palestino em Israel, blogueiro dissidente na China, cigano na Polônia, inuit em Nunavut, ativista hacker na Grã-Bretanha, mulher sozinha num beco às 2h da manhã, agricultor sem terra, ocupante no Zuccotti Park, membro de gangue na favela e no gueto, um carinha sentado sozinho num bar, um manifestante no Egito, um menino-soldado na Somália, um estudante infeliz afogado em dívidas, uma família despejada, e também somos você, claro.

Somos as minorias exploradas, marginalizadas e oprimidas que sentem no coração queimar o fogo da revolta e levantam-se para resistir e mudar o status quo. Somos cada um e todos os excluídos e roubados que acordaram para ver que, sim, cada um tem importância e merece mais da vida. Somos todas as maiorias que têm de calar e ouvir a mensagem da suficiência que nos é impingida no palco global. Somos cada movimento e cada rebelião que canaliza a própria energia para agir. Somos o medo paralisante de que tudo se repita, os pensamentos cimerianos (obscuros, escuros, infelizes, sombrios, nebulosos, frios, soturnos, depressivos, desolados, desconsolados, assustadores, apavorantes, fantasmagóricos [sobretudo no inglês da Escócia], elegíaco, funéreo, deus-nos-livre, lúgubre, miserável, mórbido, plutoniano, sepulcral, solene, sombrio, pálido, tenebrífico, tenebroso, o amaldiçoado rugido que mantém despertos, à noite, insones, os donos do poder.

Somos a espada que pende sobre a cabeça dos tiranos – isso é Anonymous.

Qualquer semelhança não é mera coincidência.