Anonymous Brasil: poder e resistência na sociedade de controle

capa-finalCom prefácio de Sergio Amadeu da Silveira

Qualquer estudo que se preze sobre os Anonymous já nasce velho e miseravelmente incompleto. Em meu caso, não pôde ser diferente. Não é preciso acompanhá-los de perto por muito tempo até se dar conta de que é sumariamente impossível pensar em capturar – quem dirá em tempo real – todas as nuances de uma rede distribuída e difusa, cujos nós se esvaem com a mesma velocidade com que se fizeram. “Anonymous”, se pudesse ser definido em poucas palavras, resultaria nisto: multiplicidade, potência e, é claro, anonimato.

Comecei a seguir alguns nichos brasileiros identificados com a ideia Anonymous ainda em 2011, pouco antes de ingressar no curso de mestrado – cujos resultados, com algumas poucas modificações, deram vida a este livro. À época, o movimento ainda se mostrava incipiente no Brasil, e pude acompanhar em linhas gerais sua gradual evolução, bem como todos os desafios e contradições inerentes a qualquer processo do gênero. Ao finalizar o estudo, em fevereiro de 2013, argumentei que os Anons brasileiros estavam em uma fase de dispersão, mas certo de que aquele era apenas um período de latência, e de que um novo arranjo despontaria em breve.

Assim se fez em junho daquele ano, quando uma onda de protestos toma conta do país. Ali os Anonymous voltam a mostrar que, para o bem ou para o mal, são atores políticos cuja relevância não deve ser relegada, cumprindo um papel de destaque ao agregar e disseminar informações sobre os protestos. Embora merecesse um capítulo à parte por sua importância e complexidade, a ação dos Anons nas manifestações de junho não pôde ser contemplada neste trabalho, defendido ainda em abril de 2013.

E, apesar de este estudo se focar especialmente na faceta hacktivista e brasileira dos Anonymous, acredito que tenha sido capaz de, primeiramente, trazer um mapa geral do movimento como um todo, aqui caracterizado como uma rede extremamente heterogênea e distribuída de grupos e indivíduos espalhados por todo o mundo, carente de centro geográfico ou de núcleo central de comando, e que abarca virtualmente a todos, a despeito de alguns hábitos e rotinas próprios. E, em segundo lugar, argumenta que, na sociedade de controle trazida à luz por Gilles Deleuze, permeada por assanges e snowdens, na qual todas as nossas informações são digitalizadas e, irrefutavelmente, monitoradas, o ativismo hacker se coloca na vanguarda da resistência política quando promove a criptografia, o anonimato, a transparência e o vazamento de informações então consideradas “segredo de Estado”.

Que este primeiro estudo sobre os Anons publicado no Brasil seja seguido por muitos outros, e que passemos a refletir seriamente sobre as novas formas de participação política que a cada dia abrem novos caminhos e possibilidades.

Como comprar?

O livro está disponível para compra em diversas livrarias, como Amazon, Livraria Cultura, Cia dos Livros, Folha, entre outras. Mas você pode ter acesso gratuito ao conteúdo básico baixando minha dissertação de Mestrado.

Resistência política, hacktivismo e Anonymous Brasil

Texto originalmente publicado no Le Monde Diplomatique Brasil

Em tempos de crescente protagonismo das mais variadas formas de redes digitais, nos quais a era informacional deixa de ser uma promessa malfadada para se tornar uma realidade incontestável, por um lado, despontam novas maneiras de se implementar o controle sobre as sociedades e, por outro, formas inusitadas de resistência política se ocupam de fazer frente a um comando cada vez mais distribuído e silencioso.

O capitalismo em seu estágio industrial, aliado a um sistema de administração social chamado por Michel Foucault de “sociedade disciplinar”, implementou formas de controle que, embora descentralizadas, exigiam a existência de meios de confinamento para disciplinar e controlar os corpos. Hospitais, escolas, quartéis, fábricas e as prisões – em essência, a imposição do controle absoluto sobre os indivíduos – são os exemplos mais comuns de instituições disciplinares. Em contrapartida, a resistência à disciplina se forjou sob a forma de sindicatos, associações de indivíduos etc.

Enquanto um meio de confinamento como a fábrica constituía os indivíduos em um só corpo, com a vantagem de controlar uma massa única, a resistência sindical, por exemplo, aproveitou-se disso para mobilizar uma massa conjunta ao reivindicar suas demandas.

Tempos depois, as instituições disciplinares se veriam em crise, juntamente com o modelo de comando utilizado por elas. Um capitalismo cada vez mais imaterial passaria, então, a implementar um controle mais sofisticado, exercido até mesmo ao ar livre, e auxiliado, em grande medida, por um sem-número de tecnologias digitais de comunicação. Chegamos, pois, ao que Gilles Deleuze, outrora parceiro de Foucault, chamou de “sociedade do controle”, cuja principal expressão, nos tempos atuais, pode ser creditada à rede mundial de computadores. A irrefreável digitalização de nossas informações sociais, culturais, financeiras e pessoais nos torna justamente isto: peças facilmente controláveis por meio de redes sociotécnicas (comércio, transporte, telefonia, aparelhos portáteis, água, luz, computação etc.).

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Hackitat: um filme sobre hacktivismo

Uma produção bastante ambiciosa e promissora pretende percorrer os quatro cantos do mundo para contar histórias sobre hacktivismo sob as lentes dos próprios hackers. A princípio, um trabalho extraordinário que só terá êxito valendo-se do crowdfunding e, é claro, da ética hacker.

Para conhecer a proposta, aí está o vídeo com legendas em português. Para fazer uma doação, clique aqui.