Mercosul e integração energética

Texto em parceria com Daniella Cambaúva publicado no Opera Mundi

CodasIntegração é chave contra problemas energéticos no Mercosul, diz ex-diretor de Itaipu

Segundo Gustavo Codas, um dos maiores empecilhos permanece sendo a “geopolítica da desconfiança” na região

A 15 quilômetros da Ponte da Amizade, que liga as cidades de Foz do Iguaçu e Ciudad del Este, está a usina de Itaipu, construção emblemática na história das relações entre Brasil e Paraguai. Construída entre 1975 e 1982, quando os dois países estavam sob ditaduras militares, é atualmente a maior usina geradora de energia do mundo.

Localizada no rio Paraná, Itaipu é uma das Sete Maravilhas do Mundo e integra parte dos roteiros turísticos de quem vai à região – em 2012, mais de 900 mil pessoas visitaram a usina. Dentro da binacional, uma das atrações é o fluxo que sai dos vertedouros: três calhas escoam o excesso que chega ao reservatório durante o período de chuvas. O espetáculo impressiona, mas a água é energia que não está sendo produzida. “Seu valor é apenas turístico”, afirma em entrevista exclusiva a Opera Mundi Gustavo Codas, ex-diretor do lado paraguaio.

Segundo ele, existe desperdício de energia. Uma das soluções para os problemas energéticos da região seria criar um sistema de troca entre Brasil, Paraguai, Argentina, Uruguai, Chile, Bolívia e Peru usando, entre outros artifícios, o excedente da usina. Ao defender uma eventual integração nessa área, Codas afirma que isso beneficiaria todos os países, tanto na questão energética quanto econômica. No entanto, aponta como um dos maiores empecilhos a “geopolítica da desconfiança” que ainda existe na região.

Codas acompanhou os dez meses de negociação entre Brasil e Paraguai durante os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Lugo, no âmbito da revisão do Tratado de Itaipu, firmada em 25 de julho de 2009. O acordo determinou que o lado brasileiro passasse a pagar ao sócio 360 milhões de dólares, frente os 120 milhões que já eram pagos pela energia consumida, reajustando de 5,1 para 15,3 o fator de multiplicação aplicado aos valores dos pagamentos por cessão de energia. O Paraguai utiliza apenas 5% da energia produzida, vendendo o excedente ao Brasil.

Opera Mundi: Qual é o principal problema energético do Paraguai hoje?
Gustavo Codas: O Paraguai vive um paradoxo. Tem abundante energia de origem hidroelétrica, porque tem duas hidroelétricas binacionais e uma do Paraguai, a Acaray. No entanto, não tem infraestrutura para um aproveitamento integral dessa energia. Ao contrário disso, gasta muito combustível importado de origem fóssil, sobretudo diesel. Setenta porcento da frota de carros no Paraguai – inclusive, carros de uso pessoal – são movidos a diesel importado. Então, há um desencontro na matriz energética entre o que se produz e o que se consume. E, no meio desse desencontro, está a falta de infraestrutura para utilizar a energia que se tem e está a falta de vontade política, que houve em governos passados, de desenvolver energias localmente.

Parte da energia hoje importada poderia ser substituída por agrocombustíveis. Existe um diesel de base agrícola, produzido no Paraguai, que é de excelente qualidade. Mas o problema está em vias de solução.

Há um investimento grande feito a partir do acordo de Lugo com Lula para a construção de uma linha em 500 kb, em alta tensão, entre Itaipu e Villa Hayes, que vai permitir resolver os gargalos atuais, como os apagões, que acontecem sobretudo no período do verão, pela falta de transmissão da energia paraguaia de Itaipu e de Yaciretá.

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Software livre no governo

REL050_CapaEste é o tema da mais nova edição da revista Espírito Livre, lançada ontem (30). Em uma rápida olhada, nota-se que o conteúdo vale a pena. Mas, a princípio, o grande mérito está em recolocar o assunto em pauta. Afinal, de tempos em tempos, a comunidade se pergunta: o que o governo federal tem feito pelo software livre?

E se chega à conclusão de que, na conjuntura atual, talvez fosse mais fácil relatar o que não foi feito. Não se formularam políticas públicas para o setor, não se incentivaram as comunidades hackers, não se aprovaram leis que, no mímimo, garantissem o acesso público a documentos oficiais por meio da adoção de padrões abertos. Ou alguém acha perfeitamente normal, por exemplo, abrir o documento de um edital de concurso público em .doc — tendo, para isso, de usar um editor de texto proprietário, vendido por uma única empresa? Creio que não. E este é apenas um exemplo de situação na qual nos vemos reféns das vontades e dos interesses de uma megacorporação de tecnologia… E na qual se evidencia que a opção pelo código aberto não é meramente técnica, mas política.

O fato é que o incentivo ao software livre, que ganhou certo destaque no início do governo Lula, não passou de uma (saudosa) onda passageira.

Que discussões como esta possam sensibilizar os gestores públicos. Clique na imagem acima para fazer o download gratuito da revista.

Em tempo: sobre o tema, vale também a leitura do texto “Quem se esqueceu do software livre?“, de Paulo Kliass, publicado na Carta Maior.

Eduardo Galeano: “Este mundo de merda está grávido de outro”

Aproveitando o recente aniversário do 15-M, que suscitou diversos debates, em diferentes plataformas, sobre as diretrizes e o futuro desse movimento, retomo aqui uma fala do escritor uruguaio Eduardo Galeano. Embora um tanto antiga (o vídeo é de maio de 2011), ela toca em uma das questões mais sensíveis levantadas pelos analistas de hoje, sobretudo aqueles para quem “política” se faz apenas em organizações institucionais, rigidamente hierarquizadas, e não sem antes elaborar um programa mínimo e um máximo, assim como um meticuloso planejamento das etapas futuras, quase num vão exercício de futurologia.

Para estes, Galeano sugere: “Não sei o que vai acontecer. E tampouco me importa muito o que vai acontecer. O que me importa é o que está acontecendo. Me importa o tempo que é. E o o que “é” é esse tempo que se anuncia sobre outro tempo possível que acontecerá”.

Segue o vídeo, com a transcrição logo abaixo.

galeano

Eu estava na Praça do Sol e aqui reencontro a mesma energia de dignidade e o mesmo entusiasmo. Esse entusiasmo é uma vitamina E, “E” de entusiasmo, que vem de uma palavrinha grega que significa “ter os deuses dentro”. E toda vez que vejo que os deuses estão dentro de uma pessoa, ou se muitas, ou de coisas, da natureza, montanhas, rios, enfim, digo: Isso é o que falta para me convencer de que viver vale a pena.

Então, estou muito contente de estar aqui, como estive antes na Praça do Sol, porque é a prova de que viver vale a pena. E que viver está muito, mas muito mais além das mesquinharias da realidade poĺítica na qual se ganha ou se perde – e da realidade individual também, em que se pode ganhar ou perder na vida. E isso pouco importa em relação a esse outro mundo que te espera. Esse outro mundo possível que está na barriga deste. Vivemos em um mundo infame, eu diria. Não incentiva muito um mundo muito mal nascido. Mas há outro mundo na barriga deste esperando… E é um mundo diferente. Diferente e de parto difícil. Não é fácil o seu nascimento. Mas, com certeza, ele pulsa neste momento. Há outro mundo que “pode ser” pulsando no mundo que “é”. Continue reading